"Sombras da Noite" coloca Tim Burton de volta nos trilhos
Tim Burton e Johnny Depp acertam o tom em filme divertido que remete ao início da parceria
Por Rafael Ariais Bezerra - 22/06/2012 23:23
Para alguns, a parceria Tim Burton e Johnny Depp parecia um pouco desgastada, principalmente depois do sofrível Alice no País das Maravilhas que foi duramente criticado pelas liberdades artísticas empregadas, principalmente pela bizarra dança final do chapeleiro maluco.
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Então, quase dois anos depois, a dupla resolve resgatar um pouco da essência que os tornaram tão famosos, com a releitura da série Dark Shadows, cultuada por ser um dos pilares modernos das séries dramáticas com teor sobrenatural. Ela foi ao ar entre 1966 até 1971. E justamente por isso que Burton decidiu estabelecer sua história em 1972, brincando com a ideia de continuação que não é continuação ou, o termo mais moderno, reboot.
O espírito da obra oscila entre o terror gótico e a comédia extravagante, brincando com as excentricidades dos anos 70, seja nas roupas, música ou estilo de vida. Convenhamos que realmente essa era a época da história humana mais propícia para isso.
O resultado é uma retomada do estilo Burtoniano puro, estabelecido em filmes como Os Fantasmas se Divertem e Edward Mãos de Tesoura, com a mistura divertidíssima do gótico com o que existe de mais excêntrico na sociedade. E, diferentemente do que o ceticismo poderia nos fazer pensar, não é necessário conhecimento prévio da série ou mesmo das referências dos anos 70. Os mais velhos podem pescar as piadas mais rapidamente. Já as crianças vão se sentir mais próximas e se identificar com o personagem de Depp, um homem fora do seu tempo tentando entender esse novo mundo.
O filme começa com uma narração em off de Barnabas Collins (Depp), contando a história de sua família, que vem da Inglaterra e constrói um verdadeiro império da pesca no litoral de uma pequena cidade dos Estados Unidos. Barnabas assim se torna um playboy rico e mulherengo que não se importava com o amor, até se apaixonar perdidamente por Josette DuPres (Bella Heathcote). Como consequência disso, ele parte o coração da empregada e amante ocasional, Angelique Bouchard (Eva Green) que coincidentemente, veja só, também é uma bruxa e não encara muito bem a situação. Por isso, ela decide se vingar matando Josette e amaldiçoando Barnabas transformando-o num vampiro.
Mesmo assim o garoto não se entrega aos caprichos da bruxa e ela, em retaliação, o prende num caixão para que fique enterrado por toda eternidade... ou, por dois séculos.
Em 1972, Barnabas é encontrado e libertado. Assim, ele vê a humanidade na época mais bizarra possível, onde era possível encontrar todo tipo de gente. Assustado, ele vai para sua antiga mansão, a Collinwood, e se depara com sua nova e decadente família: a matriarca Elizabeth Collins (Michelle Pfeiffer), sua filha Carolyn (Chloë Grace Moretz) e o canastrão Roger Collins (Jonny Lee Miller), pai desnaturado do pequeno e perturbado David (Gulliver McGrath). Além deles, vivem na mansão a Dr. Julia Hoffman (Helena Carter), psicóloga em tempo integral de David, o mordomo Willie (Jackie Earle Haley) e a jovem governanta Victoria Winters, que vejam só, é muito parecida com a Josette DuPres.
O objetivo de Barnabas se torna então devolver a glória do passado a família Collins, restabelecer os negócios e por que não, conquistar o amor da jovem Victoria. Mas para alcançar esses objetivos, nosso vampiro terá de enfrentar um pequeno problema. A bruxa Angelique não vai facilitar as coisas. Ela é dona de todo o negócio de pesca da região e não permitirá que a família Collins volte ao negócio. Ao mesmo tempo a bruxa ainda ama Barnabas e fará de tudo para conquistá-lo. Isso inclui chantagens e assassinatos se necessário.
Sombras da Noite então se mostra uma comédia sobre vampiros com pitadas de sitcom. As referências aos anos 70 são impagáveis e, em certos momentos, no meio dos diálogos, os personagens citam trechos de músicas clássicas para orgasmos da plateia. Barnabas é um peixe fora d’água e o roteiro soube usar isso ao seu favor, com ótimas colocações e piadas. Aliás, o diálogo entre Barnabas e Carolyn sobre como conquistar uma mulher e a posterior, com Barnabas pedindo conselho a um grupo de hippies, é divertidíssima. E o que dizer da participação especial de Alice Cooper? O cara manda muito bem e já vale o ingresso.
Acima de tudo, o filme é sobre família. Barnabas, desde o começo, deixa bem claro que a coisa mais importante para ele é a sua família. Então, o vampiro não quer consertar só a situação financeira dos Collins: ele quer se aproximar dela, fazer parte, cuidar de todos e resolver seus problemas pessoas, exorcizando os monstros interiores e exteriores também.
Apesar de Johnny Depp estar perfeito na pele de Barnabas Collins, com todas as afetações e estranhezas naturais ao personagem que só o ator consegue fazer, o filme é mesmo dominado pela constelação de atrizes femininas. Eva Green está no seu melhor papel, fazendo uma bruxa de contos de fada e caricaturada, mas de uma forma tão natural, que não agride de forma alguma. A lindíssima Chloë faz uma adolescente rebelde e blasé que rouba a cena. JáMichelle Pfeiffer passa uma sensação de segurança que é fundamental para estabelecer seu personagem como a chefe de uma família desnaturada e falida. E Helena Carter finalmente consegue fazer alguém não tão dark, apenas um pouco depressiva. Talvez a única personagem feminina mais fraca seja mesmo a de Bella Heathcote. Sua Victoria, apesar de parecer interessante e ser central na trama principal, não consegue chamar a atenção e fica meio esquecida a maior parte do filme.
Tenha em mente que este longa trata-se de uma comédia do Tim Burton. Se você não gosta do estilo do diretor, não é agora que começará a curtir. E quem já é fã, vai se maravilhar com a nova produção.
Sombras da Noite não é perfeito, mas em comparação com os últimos trabalhos de Burton, é quase um milagre ter se saído tão bem. Mostra que o diretor ainda pode surpreender muita gente com sua estética particular e senso de humor peculiar. Mas não espere nenhuma reinvenção ou grande surpresa.
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