"A Mulher de Preto" é filme de terror à moda antiga
Longa não depende de Daniel Radcliffe para se dar bem
Por Alexandre Carlomagno - 24/02/2012 08:39
Assim como Mark Hamill após o final da saga Guerra nas Estrelas, em 1983, a pergunta que para Daniel Radcliffe é: existe vida artística após a saga Harry Potter? O garoto cujo rosto ficou mundialmente marcado pelas aventuras do bruxo em Hogwarts conseguirá se desvencilhar de tal imagem? Com o ótimo terror A Mulher de Preto ainda não dá para ter esta certeza.
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Ele está mais maduro, com certeza, mas seu modo de atuar continua engessado. Olhares inexpressivos, gesticulações econômicas, uma interpretação de quem ainda está tentando. Aqui, ele convence como o advogado Arthur Kipps que chega a um vilarejo para cuidar das papeladas de um antigo casarão, que por sua vez parece carregar uma antiga maldição. Mas os méritos são outros, são do diretor, da fotografia e roteiro.
James Watkins, responsável pelo visceral Sem Saída (Eden Lake, 2008), concebe um delicioso filme de terror. Ele brinca com as convenções clássicas do gênero: um casarão apodrecido, uma maldição, a escuridão aclareada por velas; não é um filme de sustos fáceis, mas bem sugestivo. Ele se preocupa mais em criar uma atmosfera e mantê-la até o final, e consegue o feito – seu grande mérito aqui. Para tanto, ele deixa a câmera no espelho quando o protagonista passa, coloca-a na janela como se alguém o observasse de dentro do cômodo, cria planos, detalhes de bonecas e brinquedos com seus sorrisos largos; uma atmosfera eficientemente macabra.
A fotografia é um primor, enchendo o tal casarão com sombras sufocantes, o que contrapõe o – breve – alento do vilarejo, mais aberto, apesar de apresentar um frio cortante com os habitantes pálidos e suas casas sem cores, quase que desumanas. Por isso, quando dentro da mansão, que fica em uma ilha cujo nível da maré decide os horários de quem entra ou sai (o que corrobora para a tensão), a asfixia é quase que palpável.
E se o roteiro de Jane Goldman, com base no livro homônimo de Susan Hill (que já teve a sua vez antes, em 1989, num filme feito para a televisão), não cria uma narrativa invejável ou coisa do tipo (brincando com as convenções do gênero, é ao menos de se apreciar o seu respeito por tais aspectos), tampouco ela se deixa levar pelo o que poderia ser inevitável em um longa da estirpe: um clímax em que os personagens esmiuçam os pormenores da trama. Não, aqui – ainda que em dado momento há uma explicação desnecessária sobre uma série de mortes -, compreender os simples porquês requer atenção do início ao fim. E nem precisa ser tão atencioso, já que estamos lidando com a proposta de um terror simples, claro e direto – oldschool, se preferir.
Dessa forma, A Mulher de Preto se revela uma saborosa surpresa. Um filme que de certa forma, e à sua maneira, colabora para que o gênero não caia no desuso correto de suas ferramentas. De tão interessante, poderia funcionar muito bem com ou sem Radcliffe.
The Woman in Black – James Watkins – 2012 – 95 min. – 3/5
Texto publicado originalmente no Cinemorfose
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